ABPHE - Assoc. Bras. Pesq. Hist. Econômica


ABPHE
Apresentação
Textos
Balanço
Organização

 

V Congresso Brasileiro de História Econômica
e
6ª Conferência Internacional de História de Empresas

ABPHE


Caxambu, MG
7 a 10 de setembro de 2003



Os eventos organizados pela ABPHE, o V Congresso Brasileiro de História Econômica e a 6ª Conferência Internacional de História de Empresas, foram realizados na cidade de Caxambu, MG, entre 7 e 10 de setembro de 2003. As reuniões científicas bienais da ABPHE deixaram marcado o amadurecimento da história econômica e crescente interesse, que tem despertado entre economistas e historiadores a pesquisa sobre temas de história econômica. Durante os eventos teve-se a oportunidade de divulgar novas metodologias no trabalho com fontes primárias pouco pesquisadas, novos temas de pesquisa e re-interpretações de questões, até então, dadas como resolvidas de nossa história econômica. Percebe-se um revigoramento na investigação e na reflexão sobre história econômica e temas que pareciam estar submersos no esquecimento, em estado de letargia, vieram à tona, ganhando novas evidências e interpretações.

A Sessão de Abertura foi presidida pelo Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, professor Wilson Suzigan, e pelo Coordenador Geral do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas, professor João Antonio de Paula, que também representou a Magnífica Reitora da Universidade Federal de Minas Gerais, professora Ana Lúcia Almeida Gazzola. À mesa estiveram presentes o Excelentíssimo Prefeito da cidade de Caxambu, que deu boas-vindas aos congressistas, e o Gerente Geral da Caixa Econômica Federal que manifestou apoio ao evento e pôs a instituição à disposição para futuras realizações.

As sessões científicas incluíram: cinco conferências, cinco mesas-redondas e 113 apresentações de trabalhos em cinco módulos temáticos: Brasil Colônia e Império; Brasil República; História Econômica Geral e Economia Internacional; Metodologia, Historiografia e Pensamento Econômico e História de Empresas.

Ao todo foram recebidos 137 trabalhos completos: desses, 113 foram selecionados para apresentação nas sessões temáticas. A participação no Congresso e na Conferência atingiu o número de 200 inscritos.

Conferências

Na Conferência da Sessão de Abertura, a conferencista convidada, professora Emília Viotti da Costa, abordou as experiências de integração regional da América Central e suas conseqüências sobre a população da região, onde o empobrecimento e a exclusão social são os resultados mais notáveis. Em sua perspectiva, os estudos das experiências históricas recentes de integração regional na América Latina devem focar a situação econômica e social da população, abordando questões tais como, distribuição de renda, geração de emprego, aumento da escolaridade e da inclusão social, e não se restringir ao enfoque que privilegia a incorporação de progresso técnico, o aumento da produtividade e da competitividade. Um novo rumo deve ser dado aos estudos da história econômica recente.

Na segunda conferência, Sérgio Buarque de Holanda e a História Econômica, a professora Maria Yedda Linhares abordou o legado historiográfico deixado por um dos historiadores homenageados pelos eventos da ABPHE, Sérgio Buarque de Holanda. Em sua exposição, a conferencista deu destaque à contribuição de SBH à história econômica do Brasil, por meio da análise de três obras: Monções; Caminhos e fronteiras e Extremo Oeste.

Na terceira conferência, 10 anos de ABPHE, o professor Tamás Szmrecsányi traçou um panorama dos 10 anos de existência da ABPHE, enfatizando os pontos positivos: a realização dos congressos e conferências; a publicação da revista História Econômica & História de Empresas; o intercâmbio com associações de História Econômica de outros países etc. O conferencista não deixou, entretanto, de apontar problemas a serem enfrentados pela ABPHE, tais como, o problema da manutenção financeira da revista, o qual depende do crescimento do número de associados, do aumento de assinaturas e do financiamento do CNPq, só assim a revista será capaz de manter sua periodicidade e qualidade. Outro problema a ser enfrentado é o da atualização do registro da entidade, pois a obtenção do reconhecimento, como entidade civil, garante à ABPHE o direito a receber doações, viabilizando seu funcionamento.

A quarta conferência do professor Colin M. Lewis (LSE), intitulada: New Approaches in the Economic History and Business History Literatures, tratou duas novas abordagens em história econômica e história de empresas representadas pela Nova Economia Institucional e pelo Consumptionism. O conferencista propôs fazer uma avaliação de como os historiadores latino-americanos têm respondido ao desafio posto por essas abordagens nos estudos de história econômica da região e de história de empresas. As duas perspectivas representam dois caminhos que re-focalizam as conexões entre Estado, Mercado e Sociedade.

Na quinta conferência, Fernand Braudel e a História Econômica, o professor Francisco Falcón resgatou a contribuição do historiador francês, Fernand Braudel, também homenageado pela ABPHE. O conferencista enfatizou, sobretudo, os impactos dos conceitos de tempo de longa duração, tempo estrutural e conjuntural na produção historiográfica econômica.

Mesas-redondas

As seis mesas-redondas trouxeram temas polêmicos da historiografia ou contribuições recentes ao método de pesquisa em história econômica.

A mesa-redonda, Empresas, empresariado e desenvolvimento regional: Brasil, México, Portugal e Espanha (1870-2000), foi a oportunidade para se avaliar as experiências históricas de formação e desenvolvimento de empresas e de setores da indústria em distintos países. A história comparada das atividades econômicas no plano microeconômico, sob a interferência de diferentes ambientes institucionais, permite avançar os estudos sobre história de empresas e de grupos empresariais, assim como o de setores industriais.

A mesa-redonda, Empresa, inovação e tecnologia na América Latina, trouxe uma contribuição para o desenvolvimento de temas recentes ligados à defesa da concorrência e à regulamentação de novas tecnologias, em especial da biotecnologia e da produção de transgênicos. Os temas permitem o enriquecimento da abordagem interdisciplinar, envolvendo novas teorias de organização industrial, história econômica e a incorporação da pesquisa histórica. Disso resulta o interesse que tem sido despertado entre os historiadores econômicos as abordagens institucionalistas e neo-schumpeterianas para o estudo de empresas e setores da atividade econômica.

A mesa-redonda, Dois momentos de hegemonia liberal - 1898-1902 e 1994-2002, trouxe contribuições que permitem refletir acerca da política econômica implementada no Brasil no início do período republicano, envolvendo o governo Campos Sales e a gestão de Joaquim Murtinho no Ministério da Fazenda, focalizando a interface da política monetária com a questão cambial. Por quatro anos, Campos Sales e seu ministro da Fazenda perseguiram um plano de estabilização sob a égide do Liberalismo. A política de estabilização e de controle inflacionário foi um sucesso o que convida a fazer uma comparação com a política implementada no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Na mesa-redonda intitulada Qual o projeto nacional? o Prof. Francisco de Oliveira buscou apresentar, na sua palestra, tanto os desafios atuais quanto os impasses históricos que têm impedido que o Brasil efetivamente consiga distribuir renda e riqueza e ampliar o acesso às grandes maiorias dos frutos da modernidade. O quadro apresentado, apesar de reconhecer a gravidade do momento, reconheceu a possibilidade da superação dos crônicos déficits sociais que têm marcado a sociedade brasileira, mediante um amplo esforço de mobilização social que efetivamente signifique processo de transformação, dando direitos e voz aos excluídos.

Na mesa-redonda, Sistemas escravistas comparados, os palestrantes apresentaram resultados de pesquisas mais recentes no campo da escravidão que colocam em xeque questões tidas, até então, como certas na historiografia econômica brasileira. Dentre elas, a presença de pequenos plantéis de escravos em propriedades no sertão nordestino, região de criação de gado subsidiária à grande empresa açucareira. Retomou-se o debate sobre a decadência de Minas Gerais, no último quartel de século XVIII e primeira metade do século XIX, a evidência contrária à assertiva da decadência econômica da região está na presença de um intenso trafico de escravos para a Província de Minas Gerais, mesmo depois do refluxo da produção aurífera.

A mesa-redonda Construção do Estado na América Latina discutiu, sob diferentes óticas, a construção da identidade nacional, a qual envolvia a definição das fronteiras, da política fiscal e do problema da mão-de-obra e a solução do trabalho escravo.

Sessões temáticas

Nos módulos temáticos foram incluídos cerca de 113 trabalhos, sendo distribuídos entre os 5 módulos.

No Módulo I – Brasil Colônia e Império – a questão dos mecanismos do comércio e do mercado interno, envolvendo a produção e distribuição de alimentos, o sistema de crédito e a circulação monetária, foi a que mais atraiu a atenção dos pesquisadores. Ao lado dessa questão, um outro tema ainda mantém o interesse entre os pesquisadores do período, a questão do trabalho escravo, a distribuição da posse de escravos e a relação trabalho escravo e livre. Esses estudos têm privilegiado fontes primárias, tais como, as listas nominativas de habitantes, maços de população e seus anexos, registros cartoriais, inventários post-mortem, livros de notas e as escrituras de compra e venda de imóveis e as procurações etc.

No Módulo II – Brasil República – observa-se uma maior dispersão temática. Os temas trabalhados envolvem questões regionais, política agrícola e modernização da agricultura, indústria e mercado de trabalho, política econômica e atuação de bancos federais no financiamento do investimento produtivo, política econômica e desenvolvimento no governo Dutra e no segundo governo de Vargas. Os trabalhos com raríssimas exceções mostram a preocupação com a pesquisa empírica em fontes primárias.

No Módulo III – História Econômica Geral e Economia Internacional – o tema de maior interesse foi no campo da economia monetária e financeira, discutiu-se desde a independência do Banco Central até os determinantes para entrada de bancos estrangeiros e a internacionalização bancária. Outros temas foram tratados tais como o mercado internacional do açúcar, endividamento externo e os ciclos da economia brasileira 1969-99, mercados regionais, mercosul e a indústria de alimentos, estradas de ferro e a expansão geográfica do capitalismo na Argentina etc.

O Módulo IV - Metodologia, Historiografia e Pensamento Econômico – trouxe importantes contribuições ao debate da história do pensamento econômico como a tentativa de "descaricaturizar" a teoria da firma em Marshall, ligando o fundador da análise do equilíbrio parcial à escola institucionalista. Discutiram-se, ainda, temas ligados à filosofia da ciência e à metodologia da economia; concepção de competitividade em Fajnzylber, metodologia da pesquisa em História Econômica, emergência de uma historiografia econômica no Brasil e o papel da história natural na formação de uma economia política luso-brasileira.

O Módulo V - História de Empresas - pode reunir número expressivo de pesquisadores estrangeiros ao lado dos brasileiros. Pesquisadores portugueses, mexicanos, argentinos e uruguaios trouxeram contribuições sobre trajetórias de empresas de diferentes setores produtivos, sobre estratégias de empresas e de empresários, sobre política econômica e organizações empresariais, sobre modernização do parque industrial nos anos 20 etc. A interação obtida no módulo vem sendo fortalecida nos encontros das associações de história econômica do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Espera-se que agora, os laços sejam estreitados com mais duas associações de História Econômica do México e de Portugal.

As opiniões dos participantes convergem na concordância de que o Congresso e a Conferência atingiram seu objetivo principal - o de propiciar a discussão dos principais temas da historiografia econômica e o intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros. É unânime, também, entre os participantes a opinião da excelência da organização dos trabalhos graças à equipe liderada por Maristela Dória (Cedeplar/UFMG), que foi responsável pela criação de um ambiente acolhedor e amistoso nos dias transcorridos durante os eventos no Hotel Glória e na cidade de Caxambu.

(Este balanço foi publicado originalmente no Boletim Informativo da ABPHE, setembro de 2003).