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Nos últimos anos
percebe-se uma retomada dos estudos em História Econômica. A percepção
confirmou-se no I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica
organizado pela ABPHE, em conjunto com o Programa de Pós-Graduação em
Economia área de concentração História Econômica da FCL-UNESP,
ocorrido nos dias 2 e 3 de setembro no Campus de Araraquara. A acolhida ao
encontro foi bem acima das expectativas feitas pelos seus organizadores,
levando-se em conta o reduzido número de cursos de Pós-Graduação em
História Econômica no Brasil e a especificidade da área, a qual não
corresponde àquelas mais privilegiadas no mercado acadêmico das pós-graduações
em Economia e em História, situando-se quase sempre à margem.
O numero de trabalhos
enviados foi superior a 50 e destes foram selecionados 42. A maioria dos
participantes era de estudantes de pós-graduação que estão
desenvolvendo pesquisas para tese de doutorado ou dissertação de
mestrado. Alguns apresentaram trabalhos, já concluídos, extraídos de
suas teses ou dissertações defendidas recentemente. As treze mesas de
trabalhos contaram com a participação de comentadores e debatedores,
dentre eles ressalta-se a participação de nossos associados, que vieram
de outros estados para prestigiar o Encontro: Josué Modesto Passos
Subrinho, da Universidade Federal de Sergipe, e Carlos Gabriel Guimarães,
da Universidade Federal Fluminense.
As instituições de
origem dos participantes correspondeu a um espectro bastante
representativo dos cursos de Pós-Graduação em História e Economia do
país, embora concentrado no eixo Sudeste-Sul, como mostra o quadro
abaixo.
Os temas abordados
refletiram a preocupação de se conhecer melhor a formação da riqueza,
sua origem e as formas de sua composição e distribuição entre
diferentes ativos patrimoniais e financeiros. Esses estudos têm
concentrado sua análise no período correspondente à decadência da
economia da mineração e ao surgimento de uma nova inserção da economia
brasileira no mercado internacional, por meio da economia cafeeira. A
perspectiva dos trabalhos apresentados orientou-se por revelar o
surgimento e o desenvolvimento dos novos fluxos de negócios, por onde a
vida material, produção, distribuição e comercialização de
mercadorias destinadas ao abastecimento do mercado interno, começou a
passar de forma mais intensa, projetando uma acumulação de capital
concentrada nas mãos de poucos proprietários e comerciantes. Esses
estudos têm utilizado como fonte de investigação um conjunto de
documentos formados por inventários post mortem, escrituras
de compra e venda de imóveis rurais e urbanos, matrículas de escravos e
listas nominativas de habitantes.
Percebe-se um retorno ao
período Colonial e ao Primeiro Império que passam a ser revisitados, por
meio de estudos sobre as redes de abastecimento; a pressão demográfica;
os conflitos de terras; a organização da pequena propriedade de subsistência
e geradora de excedentes comercializáveis localmente.
O período imperial,
principalmente o Segundo Império, foi objeto de trabalhos que miraram
temas como a política econômica, enquanto dimensão institucional
definidora de regras e normas para as atividades econômicas, e de ganhos
e perdas no jogo econômico, envolvendo proprietários de terra e dinheiro
e comerciantes. Um tema caro ao Segundo Império, a transição da
escravidão para o trabalho livre apareceu nos trabalhos apresentados com
foco voltado para outros ângulos, não somente do da organização do
processo de trabalho nas unidades produtoras, mas da constituição das
famílias de libertos, após a Abolição da Escravidão e da identificação
dos caminhos trilhados pelos libertos para construir sua inclusão à
sociedade que aboliu o escravo. O impacto da Abolição da Escravidão
também foi analisado sob a perspectiva da transformação da riqueza, por
meio da identificação nos inventários post mortem das
alterações dos pesos dos ativos patrimoniais, que integram o monte mor,
e das formas de acumular riqueza.
O paradigma da transição
do trabalho escravo ao livre sustentado na solução binomial café-imigrante,
engendrada por São Paulo, tem sido alvo de contestação em virtude da
sua pretensa generalização. Com base em pesquisas junto às fontes como
os livros de administração de fazendas, as cadernetas das Vendas (armazéns)
das fazendas e as formas de contratos de formação de lavoura cafeeira
lavradas nos cartórios de diferentes localidades, os trabalhos expostos
no Encontro colocaram em xeque a generalização do paradigma. A
desorganização da produção e a fuga em massa de escravos das fazendas
vem sendo cada vez mais questionada e em seu lugar tem sido encontrado,
com a releitura e sistematização de fontes pouco trabalhadas, a permanência
do ex-escravo nos trabalhos agrícolas junto ao trabalhador nacional,
algumas vezes migrante, mas não o imigrante.
Esses temas revelam a
intensa atividade de busca de novas evidências em fontes e documentos
ainda pouco trabalhados pela historiografia econômica sobre a qual os
pesquisadores em História Econômica têm se ocupado. A reunião de um
conjunto diversificado de fontes, o qual inclui Listas Nominativas de
Habitantes, Registros Paroquiais, Inventários post mortem,
Testamentos, Contratos Comerciais, Processos Judiciais, Contrato de Compra
e Venda de Imóveis etc. tem contribuído para trazer novas evidências
das transformações das estruturas econômicas e sociais por que tem
passado a sociedade brasileira. No manuseio da documentação freqüentemente
os pesquisadores têm recorrido à técnica de mapeamento de homens, seus
nomes e de seus descendentes para acompanhar as trajetórias de suas
atividades econômicas. O trabalho tem sido minucioso, meticuloso e
demorado, mas tornado possível pelo uso de computadores, sem o qual o
trabalho seria insano.
Depreende-se do I
Encontro que o período republicano tem atraído menos a atenção dos
jovens historiadores econômicos. Mesmo com menor número de trabalhos,
ele ainda conserva uma certa "reserva natural de interesse",
principalmente, nos temas como industrialização, que tem recebido um
tratamento diferenciado nos últimos anos, por meio dos estudos das
cadeias produtivas, dos sistemas produtivos localizados (clusters),
da história de empresas, de estratégias competitivas, conquista de novos
mercado, diversificação e incorporação do progresso tecnológico. A
história e a estratégia competitiva da cervejaria Brahma, do cluster
moveleiro e calçadista foram temas dos trabalhos apresentados. A
modernização conservadora da agroindústria canavieira; o fracassado
projeto de conquista do mercado externo pela produção cacaueira do sul
baiano; as relações entre o aumento da produtividade, incorporação de
novas tecnologias e novas formas de precarização do trabalho na produção
agroindustrial foram objeto de discussão. A perda de competitividade da
estrada ferro frente à expansão dos transportes rodoviários; a construção
infra-estrutura de serviços de energia diante da institucionalização
das regras do uso e da preservação dos recursos hídricos nacionais,
dentre outros temas, estiveram no debate. A história do pensamento econômico
mais recente, dos anos 50 do século XX, também foi debatida com base em
dois trabalhos apresentados - um sobre Celso Furtado e outro sobre
Fernando Fajnzylber.
Desse breve balanço,
conclui-se que o I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica
lançou a semente, propiciando o contato, a conversa, a troca de idéias e
o debate entre os jovens pesquisadores em História Econômica, prosseguir
é preciso.
Quadro
de Participantes do
I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica
|
Instituição
|
Curso de Pós-Graduação
|
Número de
Participantes
|
|
Universidade
Estadual Paulista (Araraquara)
|
Economia, área de
História Econômica
|
10
|
|
Universidade
Estadual de Campinas
|
História Econômica
|
7
|
|
Universidade de São
Paulo
|
História,
área de História Econômica
|
5
|
|
Universidade Federal
do Rio de Janeiro
|
História, área
de História Econômica
|
5
|
|
Universidade Federal
Fluminense
|
História, área
de História Econômica |
4
|
|
Universidade
Estadual Paulista (Marília)
|
História
|
2
|
|
Universidade
Estadual Paulista (Assis)
|
História
|
1
|
|
Centro Universitário
Vila Velha
|
|
1
|
|
Universidade Federal
Viçosa
|
|
1
|
|
Universidade
Estadual de Maringá
|
|
1
|
|
Universidade
Estadual de Santa Catarina
|
|
1
|
|
Centro de Ensino
Superior de Juiz de Fora
|
|
1
|
|
Universidade
Estadual Centro Oeste-Paraná
|
|
1
|
|
Universidade de Brasília
|
História
|
1
|
|
Universidade de
Coimbra, Portugal
|
|
1
|
|
Stanford University
California, USA
|
|
1
|
|
Total
|
|
42
|
|
|
|