Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica - ABPHE

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I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica
Araraquara, 2 e 3 de setembro de 2002
Outros eventos promovidos pela ABPHE

Nos últimos anos percebe-se uma retomada dos estudos em História Econômica. A percepção confirmou-se no I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica organizado pela ABPHE, em conjunto com o Programa de Pós-Graduação em Economia área de concentração História Econômica da FCL-UNESP, ocorrido nos dias 2 e 3 de setembro no Campus de Araraquara. A acolhida ao encontro foi bem acima das expectativas feitas pelos seus organizadores, levando-se em conta o reduzido número de cursos de Pós-Graduação em História Econômica no Brasil e a especificidade da área, a qual não corresponde àquelas mais privilegiadas no mercado acadêmico das pós-graduações em Economia e em História, situando-se quase sempre à margem.

O numero de trabalhos enviados foi superior a 50 e destes foram selecionados 42. A maioria dos participantes era de estudantes de pós-graduação que estão desenvolvendo pesquisas para tese de doutorado ou dissertação de mestrado. Alguns apresentaram trabalhos, já concluídos, extraídos de suas teses ou dissertações defendidas recentemente. As treze mesas de trabalhos contaram com a participação de comentadores e debatedores, dentre eles ressalta-se a participação de nossos associados, que vieram de outros estados para prestigiar o Encontro: Josué Modesto Passos Subrinho, da Universidade Federal de Sergipe, e Carlos Gabriel Guimarães, da Universidade Federal Fluminense.

As instituições de origem dos participantes correspondeu a um espectro bastante representativo dos cursos de Pós-Graduação em História e Economia do país, embora concentrado no eixo Sudeste-Sul, como mostra o quadro abaixo.

Os temas abordados refletiram a preocupação de se conhecer melhor a formação da riqueza, sua origem e as formas de sua composição e distribuição entre diferentes ativos patrimoniais e financeiros. Esses estudos têm concentrado sua análise no período correspondente à decadência da economia da mineração e ao surgimento de uma nova inserção da economia brasileira no mercado internacional, por meio da economia cafeeira. A perspectiva dos trabalhos apresentados orientou-se por revelar o surgimento e o desenvolvimento dos novos fluxos de negócios, por onde a vida material, produção, distribuição e comercialização de mercadorias destinadas ao abastecimento do mercado interno, começou a passar de forma mais intensa, projetando uma acumulação de capital concentrada nas mãos de poucos proprietários e comerciantes. Esses estudos têm utilizado como fonte de investigação um conjunto de documentos formados por inventários post mortem, escrituras de compra e venda de imóveis rurais e urbanos, matrículas de escravos e listas nominativas de habitantes.

Percebe-se um retorno ao período Colonial e ao Primeiro Império que passam a ser revisitados, por meio de estudos sobre as redes de abastecimento; a pressão demográfica; os conflitos de terras; a organização da pequena propriedade de subsistência e geradora de excedentes comercializáveis localmente.

O período imperial, principalmente o Segundo Império, foi objeto de trabalhos que miraram temas como a política econômica, enquanto dimensão institucional definidora de regras e normas para as atividades econômicas, e de ganhos e perdas no jogo econômico, envolvendo proprietários de terra e dinheiro e comerciantes. Um tema caro ao Segundo Império, a transição da escravidão para o trabalho livre apareceu nos trabalhos apresentados com foco voltado para outros ângulos, não somente do da organização do processo de trabalho nas unidades produtoras, mas da constituição das famílias de libertos, após a Abolição da Escravidão e da identificação dos caminhos trilhados pelos libertos para construir sua inclusão à sociedade que aboliu o escravo. O impacto da Abolição da Escravidão também foi analisado sob a perspectiva da transformação da riqueza, por meio da identificação nos inventários post mortem das alterações dos pesos dos ativos patrimoniais, que integram o monte mor, e das formas de acumular riqueza.

O paradigma da transição do trabalho escravo ao livre sustentado na solução binomial café-imigrante, engendrada por São Paulo, tem sido alvo de contestação em virtude da sua pretensa generalização. Com base em pesquisas junto às fontes como os livros de administração de fazendas, as cadernetas das Vendas (armazéns) das fazendas e as formas de contratos de formação de lavoura cafeeira lavradas nos cartórios de diferentes localidades, os trabalhos expostos no Encontro colocaram em xeque a generalização do paradigma. A desorganização da produção e a fuga em massa de escravos das fazendas vem sendo cada vez mais questionada e em seu lugar tem sido encontrado, com a releitura e sistematização de fontes pouco trabalhadas, a permanência do ex-escravo nos trabalhos agrícolas junto ao trabalhador nacional, algumas vezes migrante, mas não o imigrante.

Esses temas revelam a intensa atividade de busca de novas evidências em fontes e documentos ainda pouco trabalhados pela historiografia econômica sobre a qual os pesquisadores em História Econômica têm se ocupado. A reunião de um conjunto diversificado de fontes, o qual inclui Listas Nominativas de Habitantes, Registros Paroquiais, Inventários post mortem, Testamentos, Contratos Comerciais, Processos Judiciais, Contrato de Compra e Venda de Imóveis etc. tem contribuído para trazer novas evidências das transformações das estruturas econômicas e sociais por que tem passado a sociedade brasileira. No manuseio da documentação freqüentemente os pesquisadores têm recorrido à técnica de mapeamento de homens, seus nomes e de seus descendentes para acompanhar as trajetórias de suas atividades econômicas. O trabalho tem sido minucioso, meticuloso e demorado, mas tornado possível pelo uso de computadores, sem o qual o trabalho seria insano.

Depreende-se do I Encontro que o período republicano tem atraído menos a atenção dos jovens historiadores econômicos. Mesmo com menor número de trabalhos, ele ainda conserva uma certa "reserva natural de interesse", principalmente, nos temas como industrialização, que tem recebido um tratamento diferenciado nos últimos anos, por meio dos estudos das cadeias produtivas, dos sistemas produtivos localizados (clusters), da história de empresas, de estratégias competitivas, conquista de novos mercado, diversificação e incorporação do progresso tecnológico. A história e a estratégia competitiva da cervejaria Brahma, do cluster moveleiro e calçadista foram temas dos trabalhos apresentados. A modernização conservadora da agroindústria canavieira; o fracassado projeto de conquista do mercado externo pela produção cacaueira do sul baiano; as relações entre o aumento da produtividade, incorporação de novas tecnologias e novas formas de precarização do trabalho na produção agroindustrial foram objeto de discussão. A perda de competitividade da estrada ferro frente à expansão dos transportes rodoviários; a construção infra-estrutura de serviços de energia diante da institucionalização das regras do uso e da preservação dos recursos hídricos nacionais, dentre outros temas, estiveram no debate. A história do pensamento econômico mais recente, dos anos 50 do século XX, também foi debatida com base em dois trabalhos apresentados - um sobre Celso Furtado e outro sobre Fernando Fajnzylber.

Desse breve balanço, conclui-se que o I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica lançou a semente, propiciando o contato, a conversa, a troca de idéias e o debate entre os jovens pesquisadores em História Econômica, prosseguir é preciso.

Quadro de Participantes do
I Encontro de Pós-Graduação em História Econômica

Instituição

Curso de Pós-Graduação

Número de Participantes

Universidade Estadual Paulista (Araraquara)

Economia, área de História Econômica

10

Universidade Estadual de Campinas

História Econômica

7

Universidade de São Paulo

História, área de História Econômica

5

Universidade Federal do Rio de Janeiro

História, área de História Econômica

5

Universidade Federal Fluminense

História, área de História Econômica

4

Universidade Estadual Paulista (Marília)

História

2

Universidade Estadual Paulista (Assis)

História

1

Centro Universitário Vila Velha

 

1

Universidade Federal Viçosa

 

1

Universidade Estadual de Maringá

 

1

Universidade Estadual de Santa Catarina

 

1

Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora

 

1

Universidade Estadual Centro Oeste-Paraná

 

1

Universidade de Brasília

História

1

Universidade de Coimbra, Portugal

 

1

Stanford University California, USA

 

1

Total

 

42


[Texto publicado originalmente no Boletim Informativo de setembro de 2002].
 
 

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