ABPHE convida à leitura

 

Na saúde e na doença: história, crises e epidemias - reflexões da história econômica na época da covid-19

Organização de Rita de Cássia da Silva Almico, James William Goodwin Jr. e Luiz Fernando Saraiva

Editora: Hucitec. Local: São Paulo. Ano da edição: 2020

Para baixar o livro, acesse aqui.

 

Do Prefácio do livro: 

"O historiador Eric Hobsbawm disse certa vez que os únicos relatos e análises que os historiadores podem fazer sobre corridas de cavalo abordam aquelas já ganhas ou já perdidas. Ou seja, os historiadores somente podem analisar o que já passou; mais que isso, só projeções mais ou menos infundadas e sem base ou rigor científico. Talvez menos confi áveis que os palpites dos apostadores.

As pessoas que fazem a história das corridas de cavalo — e devem existir quem as faça — podem dizer, às vezes com segurança, quem ganhou as corridas no passado, quem foram os jóqueis e os cavalos premiados, o valor total das apostas e as expectativas de fraude, falar dos prêmios e do que estava em jogo. Da mesma forma, quem faz a história da saúde pode explicar as complexas relações entre doenças e sociedades; entre as visões do corpo que as formulações das ciências e as pessoas tinham (e têm) e dos conflitos entre elas; das causas de doenças e dos condicionantes sociais que as propagavam e as combatiam — alguns dos quais permanecem atuais.

Esses historiadores e historiadoras estão, agora mesmo, tentando entender o atual momento com todos os seus conhecimentos e informações. Para eles e elas, nosso respeito!

Mas não somos especialistas na História da Saúde.

Somos historiadores, economistas, geógrafos, sociólogos, todos professores e professoras atualmente envolvidos, em diferentes graus, com atividades remotas, compartilhando a angústia e o temor por familiares, amigos e estudantes. Somos parte da torcida silenciosa (e ocasionalmente barulhenta) pelos que estão na linha de frente do enfrentamento à doença. Somos aqueles e aquelas que, em casa, estamos pensando sobre tudo isso e querendo ajudar mais. Tentando entender o mundo que tínhamos, este que temos agora e imaginar o que teremos à frente.

Num momento como este, a gente se pega perguntando: o mundo que conhecíamos poderá voltar a existir? Ou acabou de vez? Quando foi que ele começou a acabar? Que mundo será esse que virá?

São perguntas relacionadas à atual pandemia do coronavírus, quando quase todas as pessoas sentem a magnitude da situação, seja por força do isolamento social ou por suas drásticas consequências no modo de vida a que estavam habituadas. Mas não se reduzem somente a este momento.

Pois seria o caso de dizer que para quem os viveu, qualquer momento histórico de ruptura — como as guerras mundiais; a polarização entre socialismo e capitalismo; a queda do bloco socialista; os atentados terroristas; para ficarmos em eventos globais do século XX — poderia ser reconhecido no parágrafo acima.

De fato, historiadores e historiadoras tendem a valorizar momentos de ruptura e mudanças em tudo que estudam. Convém lembrar, porém, que a História enquanto ciência no século XX assistiu e assimilou a passagem de uma História Política e eminentemente cronológica (no ano X o rei fulano cedeu lugar ao rei beltrano, o país tal foi invadido pelo país qual etc.) para uma História Social, na qual era mais importante pensar como os bilhões de seres humanos levavam suas vidas cotidianas. Há certa ironia nisso: para além das rupturas estrondosas buscou-se o regular ritmo desse grande comboio de cordas, como dizia Fernando Pessoa. Mais do que os trovões do campo de batalha, o que os historiadores buscaram era o inefável tic-tac, o enfadonho tic-tac que manteve sociedades estáveis, ainda que em constante mutação.

Nos últimos milênios esse ritmo tem variado conforme as regiões, climas e culturas. Mas tem sempre convivido com momentos de doença e saúde, com endemias, epidemias e agora pandemias. Momentos de crise, a desafi nar as cordas, a desorganizar os ritmos cotidianos, a atravessar o samba, como diriam velhos frequentadores de rodas noturnas. Nesses momentos, questões como desigualdade e exclusão social; boatos, notícias inventadas e trocas de acusação; desprezo pelo conhecimento especializado e apego a soluções mágicas; crises econômicas e superações coletivas têm sido parte do movimento humano de reinvenção da vida.

Este livro se propõe a apresentar e refletir sobre algumas dessas experiências, vividas por pessoas em tempos e lugares variados. Foram escritos por pessoas espalhadas por larga parte do território brasileiro; como bem mostra a composição de imagens da capa, da janela de sua casa cada autor, cada autora tem uma perspectiva diferente do mundo. É esta diversidade de pontos de vista, conteúdos, formações teóricas e vivências que forma a maior riqueza deste livro.

Esta bagagem teórica e metodológica é própria da maneira como nós atuamos em nossas áreas intelectuais. Há documentos a serem analisados, textos que nos ajudam a entender certos aspectos da situação, que ampliam nosso conhecimento sobre um tema ou uma época, os quais contribuem para que possamos formular nossas próprias leituras e interpretações do mundo. Isto é o que chamamos de referências documentais e bibliográficas, normalmente incluídas no texto num formato próprio. Aqui, optamos por remeter todo esse material a uma parte específica, ao final. Isto torna a leitura do texto mais leve, e tem a vantagem de permitir que se vejam as referências numa visão panorâmica de toda a obra.

Para organizar esse rico caleidoscópio, os textos foram agrupados em sete blocos, os quais estão dispostos numa ordem levemente cronológica. Para além das datas e marcos temporais, porém, o que caracteriza cada unidade é a proximidade dos problemas, das temáticas e das abordagens apresentadas.

O termo “pandemia” entrou, definitivamente, para nosso vocabulário corrente. Ainda que em grego (“pan” = todo + “demos” = povo) a palavra não designasse, especificamente, uma doença, indicava aqueles eventos significativos para todo o povo. Começamos o livro, portanto, retornando à Grécia Clássica, para pensar sobre doenças e suas implicações para a vida política e social das comunidades atingidas.

Um salto temporal e geográfico nos traz ao mundo atlântico dos séculos XVIII e XIX, e as tentativas de organizar e ordenar saberes e práticas visando controlar as doenças, e, também, a vida das pessoas. As quais eram tratadas, muitas vezes, como mercadorias, num infame comércio que atravessou séculos, oceanos e continentes, traspassando ainda a maneira como pensamos e agimos. As implicações disso para a saúde das pessoas, e do tecido social, revelam uma deficiência que perdura até hoje: somos uma sociedade que não se enxerga.

A urbanização em território brasileiro, intensificada nas décadas finais do século XIX, gerou novas questões relativas ao convívio das pessoas e o que isso significava, também, para a saúde pública — um conceito relativamente novo, cujos efeitos práticos se constituíram mesclados a outras demandas da civilidade. Em meio às tentativas de modernizar a sociedade brasileira, conforme concepções próprias da época, os períodos de doenças surgiam como rupturas a revelar as condições objetivas de produção da vida, no ambiente urbano e além dele: o que se come, o que se bebe, o que se valoriza, o que se celebra, quem produz todas essas coisas.

As crises explicitam as escolhas, as prioridades de cada época: suas teorias econômicas, seus pressupostos ideológicos (ditos e não ditos), a interpretação de cada situação e aquilo que delas se depreende. Exigem que sejam confrontadas questões profundas: que tipo de sociedade se quer? Quem faz parte dela, quem se beneficia de seus recursos? Quem participa do processo de escolhas? Longe de serem questões técnicas apenas, as crises, especialmente as epidemias, são momentos que, efetivamente, atingem a todo (pan) o povo (demos). As pandemias são tempos de inflexão e pedem a reavaliação das nossas ações.

Um registro aqui se faz muito importante: a Hucitec, na figura de sua editora, Mariana Nada, abraçou entusiasticamente a ideia deste livro, dedicando ao projeto muito carinho e energia criativa. Faz justiça à postura do saudoso Flávio Aderaldo, criador e, durante muitos anos, seu editor-chefe. Como aprendemos com Flávio, os escritos têm o seu destino (habent sua fata libelli).

Eis, portanto, a nossa pequena e humilde contribuição para enfrentar este momento específico que vivemos: lembrar alguns desses outros eventos que foram vividos, buscar conexões entre esses fatos e o que vivemos agora. Lembrar que já passamos por isso e podemos sobreviver; mais que isso, podemos melhorar. Sabemos, porém, que não estaremos todos juntos depois, pois alguns não mais estarão entre nós.

Sabemos, também, que essas pessoas seguirão conosco, vivendo em nossas lembranças, pois conosco participaram desse momento de crise e ruptura que vivemos.

Pois somos, todos e todas, parte da história deste mundo. Na saúde e na doença.

Rita de Cássia da Silva Almico, James William Goodwin Jr., Luiz Fernando Saraiva

Maio de 2020"

 

 


 

O capital suicida: racionalidade ambiental, autointeresse e cooperação no século XXI

por Flávio Tayra

Prefácio e introdução do livro O Capital Suicida. Racionalidade ambiental, autointeresse e cooperação no século XXI. São Paulo: Poligrafia Editora, 2019. Apresentação da orelha da obra: Clóvis Cavalcanti.

 

Apresentação

A economia com ela se apresenta no momento é suicida, insustentável por dentro e por fora; por dentro, ao gerar dissensões sociais que tendem a serem insuportáveis ao concentrar a renda e enriquecer assombrosamente alguns poucos. Pelo seu lado físico, externo, porque as demandas da economia em expansão superam o rendimento sustentável dos ecossistemas consumindo a sua dotação de capital natural, destruindo lentamente os seus sistemas de apoio. A combinação desses dois ingredientes dá o tom da tragédia atualmente vivida e deve (ou deveria) dimensionar e direcionar os esforços necessários para tentar mudá-la.

Apesar da grande popularidade do desenvolvimento sustentável e de muitas pessoas estarem convencidas da existência de problemas ambientais reais e globais – como a mudança climática decorrente do aquecimento global –, as mudanças fundamentais das políticas atuais, ainda seguem em vidente contradição com a maioria das experiências cotidianas. O uso exacerbado dos recursos naturais e a poluição, o consumo desenfreado e estimulado, o culto à imagem... todos estes são exemplos relacionados de uma racionalidade produtiva em crise. Para definir algumas regras comuns para o exercício de uma racionalidade ambiental, é preciso começar a prestar maior aten&cce dil;ão em alguns de seus aspectos essenciais.

Para acessar o Prefácio, de Clóvis Cavalcanti, e a Introdução do livro, acesse aqui.

 

 


História do pensamento econômico – Pensamento econômico brasileiro

por Daniel do Val Cosentino e Thiago Fontela Rosado Gambi (org)

Prefácio e Introdução de História do pensamento econômico – Pensamento econômico brasileiro (Rio de Janeiro: Eduff, São Paulo: Hucitec, 2019).

 

Apresentação

Tem sido substantiva a contribuição da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE) para o ensino e a pesquisa em história econômica nas suas mais diferentes modalidades. Este volume, voltado para a história do pensamento econômico brasileiro, inaugura a nova coleção da ABPHE sobre a história econômica do Brasil e atualiza a iniciativa, feita nos anos 1990, pelo mestre Tamás Szmrecanyi.

Esta obra é um registro da maturidade das investigações feitas sobre a história da economia, cujos autores compõem uma comunidade informada sobre o melhor da pesquisa que se pratica internacionalmente e comprometida com a superação de velhas e novas mazelas nacionais. Desde as reflexões de Sylvio Romero em capítulo de sua História da Literatura Brasileira (1888), muito se avançou a respeito das ideias econômicas no Brasil. A reflexão própria sobre os processos econômicos brasileiros fez parte de movimento mais geral que também incluiu a modernização econômica do país e de suas instituições político-culturais. Ao longo do século XX, a história da economia brasileira se constituiu, por tanto, em um campo do conhecimento com autores e leitores interessados em compreender os modos como se deram as relações de troca, integrando fenômenos locais a manifestações mais amplas da economia mundial.

Este livro traz contribuições primordiais para uma leitura contemporânea da história da economia brasileira, reunindo também jovens pesquisadores que vêm renovando o campo, por meio de olhares mais integrados e interdisciplinares

(da Ordelha escrita por João Antonio de Paula)

Acesse o capítulo aqui!

 

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Pensamento econômico e história do pensamento econômico do Brasil

por João Antônio de Paula

Parte do livro Rumos da História Econômica no Brasil: 25 anos da ABPHE (São Paulo: Alameda, 2017).

 

Apresentação

O texto do professor João Antônio de Paula é um poderoso ensaio acerca do Pensamento Econômico Brasileiro enquanto conhecimento autônomo com suas origens, entre nós, ainda no século XVI e as razões de porque esse campo de investigação demorou a se constituir no país. O texto em homenagem ao professor Tamás Szmrecsányi, um dos principais fundadores da ABPHE e o seu primeiro presidente, pode ser acessado em http://www.abphe.org.br/abpheconvida-a-ler

 

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Os quatro cavaleiros do falso apocalipse

por Roberto Borges Martins

Parte do pós-escriptum do livro Crescendo em silêncio: a incrível economia escravista de Minas Gerais no século XIX (Belo Horizonte: ICAM: ABPHE, 2018.).

 

Apresentação

A tese de doutorado de Roberto Borges Martins – “Growing in silence: the slave economy of nineteenth-century Minas Gerais, Brazil” - defendida em 1980 na Vanderbilt University, teve uma trajetória única no pensamentosocial brasileiro. Texto muito citado e nem sempre lido, tornou-se referência obrigatória entre aqueles que estudam a economia brasileira no oitocentos e impôs reflexões e inflexões no fazer historiográfico que até hoje são sentidas para a compreensão da importância que a escravidão teve na formação de nossa sociedade.

A publicação dessa alentada parte de seu post-escriptum sintetiza, nas palavras do próprio autor, a sua nova interpretação sobre a economia mineira no século XVIII.

Acesse o capítulo aqui!

 

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Henrique Augusto Milet: um papelista e desenvolvimentista no Nordeste na segunda metade do século XIX?

por Flávio Azevedo Marques Saes

 

Capítulo a ser publicado no livro Ideias econômicas no Brasil oitocentista, organizado por Ivan Colangelo Salomão e Luiz Felipe Bruzzi Curi (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2019).

 

Apresentação

O propósito de organizar uma obra sobre as ideias econômicas no Brasil do século XIX surgiu da percepção de que a temática, especialmente no que se refere a esse período, encontra uma lacuna patente na historiografia brasileira. A ênfase que geralmente se atribui ao debate econômico após o estabelecimento dos primeiros cursos de Economia no país, nos anos 1940, contribui para escamotear a já intensa circulação de ideias econômicas no Brasil pré-industrial.

Se a maioria delas era, de fato, importada dos países centrais, pode-se observar na leitura desta obra que os principais temas econômicos de que se ocupava a elite brasileira já incorporavam traços da vivência nacional. Diferentemente do que entendia Celso Furtado, por mais recorrentes que aqui fossem os assuntos originalmente discutidos nas escolas europeias, percebe-se que o debate nacional ganhava tinturas tropicais ao se adaptar aquelas ideias às especificidades locais. Temas caros à sociedade brasileira do século XIX, tais como escravidão, latifúndio, diversificação produtiva, política aduaneira etc. fizeram do encontro da teoria econômica com a realidade brasileira um rico objeto de estudo para pesquisadores contemporâneos.

Dessa forma, reuniram-se economistas e historiadores os quais se propuseram a analisar os principais fundamentos do pensamento econômico de nove relevantes atores do cenário político-econômico brasileiro daquele momento. Conquanto não se tenha pretendido inter-relacionar os capítulos, a disposição cronológica dos personagens permite que se vislumbrem as continuidades e reconfigurações relativas aos mais relevantes temas presentes no debate econômico do “longo século XIX”.

Por ocasião da inauguração da seção ABPHE convida à leitura, a associação disponibiliza o artigo do professor Flavio Azevedo Marques Saes sobre Henrique Augusto Milet, engenheiro francês que migrou para Pernambuco nos anos 1840, onde atuou na construção de diversas obras públicas e acabou se tornando proprietário de um engenho. Além da atuação empresarial, Milet participou ativamente dos debates econômicos local e nacional, publicando uma série de artigos no Brasil e na França.

Além do trabalho de Flavio Saes, o livro conta como mais 8 capítulos sobre as ideias econômicas de autores relevantes: José da Silva Lisboa (Mauricio Chalfin Coutinho), José Bonifácio de Andrada e Silva (Ivan Colangelo Salomão), Hipólito José da Costa (Milena Fernandes de Oliveira e Nelson Mendes Cantarino), Joaquim José Rodrigues Torres (Thiago Fontelas Rosado Gambi), Henry Dunning MacLeod (Fábio Rogerio Cassimiro Corrêa), Luiz Rafael Vieira Souto (Daniel do Val Cosentino), Rui Barbosa (Luiz Felipe Bruzzi Curi) e Clóvis Bevilaqua (Pedro Hoeper Dacanal e Alexandre Machione Saes).

Assim, espera-se que este livro preencha, ainda que embrionariamente, o hiato existente no estudo das ideias econômicas do Brasil oitocentista. Sem a pretensão de encerrar o assunto, a obra busca incentivar o desenvolvimento de novas pesquisas concernentes a este tema tão pouco explorado pela historiografia brasileira.

Os organizadores

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